segunda-feira, 16 de abril de 2012

Coisas do coração

A: O que você tem, eim?!
C: Ah...coisas do coração!
A: Dor?
C: Vazio...
A: Impossível!
C: Impossível, por que?
A: Ah! Ninguém tem um coração vazio! Eu, por exemplo, tenho muitas coisas boas dentro do meu!
C: Você?!
A: Você!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Monarcas

A: Você vê?
C: Não tem mais nada para ser visto.
A: Não quando se ignora.
C: Não vale à pena.
A: Não foi tentado.
C: Não é tão simples.
A: Nada é fácil.
C: Mas existem outros caminhos.
A: Fugir não é um deles.
C: Talvez seja
A: Talvez...
C: ...
A: Espera...(Abre a mochila, vasculha por alguns instantes e retira uma pequena caixa de papelão).
C: O que é isso?
A: É pra você! Abre a mão! ( Reira algo de dentro da caixa)
C: Mas isso é uma borboleta viva!
A: Pois é...bonita de longe e feia de perto.
C: O que isso quer dizer?
A: Borboletas vivem até 8 dias.
C: Mas essa é uma Monarca!
A: E o que tem?
C: Elas vivem mais do que o normal. Podem viver durante meses!
A: E depois acaba!
C: Nada é pra sempre!
A: Eu achei que a gente fosse...
C: Mas a gente é!
A: Como as borboletas?
C: Como as Monarcas!

domingo, 25 de março de 2012

Desabafo inconstante

A vida, às vezes, é bem peculiar. A intensidade como as coisas acontecem, se cruzam, passam escoam, marcam é realmente instigante. Às vezes me pego parado no espaço analisando justamente isso. Essa inconstância de quereres, de poderes. Hoje o nada é meu tudo, mas amanhã descubro que o tudo sempre foi nada. É questão de significados, entende? As coisas vão se modificando, perdendo a prioridade, a importância, a intensidade. Porém, há certas coisas que marcam, que por menos intensas que elas se tornem com o tempo, elas se fixam na nossa essência.

O ser humano é inconstante. Mas os sentimentos não. Eles sempre seguem uma linha na constância dos acontecimentos vividos, experienciados. Contudo, ao misturamos essas duas propriedades antagônicas, o que inevitavelmente vai ocorrer, entramos em uma situação de extrema delicadeza. Trocando em miúdos, o que quero dizer é que o ser humano sempre vai se apaixonar e sofrer por isso. Sempre vai rir e chorar por algo. Sempre vai querer e repugnar alguma coisa. O ser humano é inconstante. Satisfação é uma palavra utópica. Quanto mais próximo dela, mais momentânea ela é. Dura pouco, escoa rápido. E em breve a angústia bate na porta em busca de novas realizações. Isso nos move, de certa forma. Nunca estamos parados, pelo contrário, sempre em busca de algo, palpável ou não. Porém, chega um momento em que a estabilidade se torna nosso maior objetivo. E como a satisfação, a estabilidade sentimental chega a ser uma fantasia. Repito mais uma vez: o ser humano é inconstante.

Estável ou não. Satisfeito ou não. A minha vontade de você se fixou em minha essência por tempo indeterminado. Eu sou inconstante. Você é inconstante. E o que hoje eu sinto por você depende da constância dos fatos que a sua inconstância se mostra influente na minha inconstância. Complicado, não? O ser humano é inconstante. E a inconstância é um jeito de complicar as coisas.

sábado, 10 de março de 2012

Afável amor

Apaixonar-se é uma condição muito controvérsia. O coração se alegra infinitamente fácil com o mínimo gesto de uma pessoa apaixonante para com o apaixonado. Porém, a falta de gestos desencadeia uma angústia profunda capaz de nos tirar o sono. Apaixonar-se é cruelmente bom. É o portão de entrada para a admiração. Que é o caminho para o amor. Que, por sua vez, é o elemento chave capaz de nos fazer engolir sapos, ferir o ego, quebrar conceitos, e o que quer que seja para que aceitemos as diferenças do sujeito amado. Diferenças essas que, ora nos acrescentam, ora nos ferem. Amar é infinitamente cruel. Cruelmente bom.

Fisiologicamente amar é perder o apetite, suar frio, oscilar a pressão sanguínea entre picos elevados e quedas bruscas. Amar é sentir os batimentos cardíacos te tirar o fôlego. A respiração ofegante. As mãos trêmulas. É sorrir atoa, gaguejar, olhar pra tudo e nada ao mesmo tempo. É se desligar da realidade, cantar repetidamente o verso de uma canção. Amar é perder o foco. Andar sem rumo, suspirar pelos cantos. Fisiologicamente, amar é visível. Amar é sofrível. É angústia, ansiedade. Amar é choro escondido, orgulho ferido, sorriso dolorido. Amar machuca, emagrece, engorda. É o tapa na cara, o choque de realidade, a facada no peito. Dor insuportável, alegria incontrolável. Independentemente, amar é paradoxo.

A paixão inicia, o amor termina. A paixão ensina, o amor apóia. A paixão inova, o amor conforta. A paixão renova, o amor suporta. A paixão cega, o amor revela. A paixão e o amor intensificam. A paixão e o amor alegram. A paixão e o amor se completam. São faces de uma mesma moeda que, em conjunto, sustentam a vida. Recheiam os dias. Apaixonar é se arriscar. Amar é se entregar. Depois da paixão vem o amor. A paixão por você ainda não acabou, mas o amor já começou a brotar.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Quebrando promessas

Prometi pra mim que não iria me apaixonar tão cedo. Prometi pra mim que não iria deixar ninguém dominar meu coração, preenchendo-o com desejos românticos. Prometi pra mim mesmo que não iria criar expectativas e nem acreditaria no que as novas pessoas da minha vida me diriam. Prometi pra mim que ninguém iria me prender, me gamar o suficiente a me fazer querer mais, talvez um "pra sempre". Por fim, prometi cumprir todas essas promessas. No entanto, a minha necessidade de sentir é tão mais forte do que qualquer promessa que eu já fiz ou ousasse fazer. E, portanto, quando eu menos esperasse, já estava sentimentalmente envolvido, encantado, admirado e finalmente, apaixonado.

Essa determinação ilusória de que nada me abalaria sentimentalmente era o que predominava em mim quando abri os olhos naquela manhã de sexta-feira. A ansiedade em te encontrar me enlaçou despercebido de tal forma que, sem nem notar, eu já estava me envolvendo. Planejei minuciosamente o meu dia, de uma maneira que pudesse reservar a maior parte das horas pra você. O tempo era curto, eu sabia disso. E, mesmo que fosse demasiadamente desejado, era impossível exceder o limite. Ainda acreditando piamente que nada demais aconteceria tomei o ônibus das 10h rumo a sua cidade. Certo de que lucraria em poder te encontrar, já que este não foi, de início, o principal propósito que me motivou a viajar, eu finalmente estava indo ao seu encontro.

Lembro que quando te vi, estava no telefone conversando com uma amiga que insistia em me contar as novidades. Até aquele momento tudo em mim circulava em perfeita harmonia. Porém, quando vi seu braço se estender em forma de aceno, com o intuito de me indicar que você já havia chegado foi essencial para que eu me desequilibrasse sentimentalmente. Senti o seu olhar tocar meu corpo a cada momento em que você me reparava, analisava. E quando ele cruzou com o meu me perdi naquela imensidão esverdeada de tal forma que, se você quisesse conheceria minha alma por inteira. Essa estava nua diante do seu olhar forte e cativante. A timidez surgiu quase que instantaneamente. As palavras sumiram da minha boca. Minhas mãos suavam e, inutilmente, tentei apertar o telefone celular de um jeito que o impedisse de escorregar pelos dedos. Minha amiga tentava, insistentemente, prender minha atenção nos seus assuntos. Naquela hora, porém, por mais que eu quisesse, era inútil me concentrar em qualquer coisa a não ser nos seus olhares tão furtivos que me enfeitiçaram e me fizeram perder completamente a linha de raciocínio. Irritado por ainda estar no telefone e mais tímido ainda pela falta de educação, apressei o fim da ligação para que nada me atrapalhasse naquele momento que eu comecei a ter com você. Entramos no seu carro. Eu, com meu jeito desconsertado, me embolei na hora de prender o cinto de segurança. Sentindo meu rosto queimar como fogo de uma brasa quente, eu tentava ser o mais natural possível, de forma a mascarar a minha completa falta de jeito e vergonha predominante. As conversas foram se desenrolando, os assuntos se modificando e a gente se permitindo conhecer a cada palavra trocada. A empatia foi tão grande que, por mais que não nos conhecêssemos direito e que a minha timidez ainda era existente, eu me sentia à vontade com você. Falava as coisas da forma como eu senti, vivi, aprendi, sem nem peneirar muito a fala, escolher muito as palavras. Te disse tudo de uma forma crua e sincera, sem medo do que você fosse pensar, de como reagiria. Sem tomar conta, eu estava começando a me apaixonar.

Fomos para sua casa. Sara, sua cachorrinha de estimação, lhe deu boas vindas ansiosa e com vontade dos seus afagos. Fomos até o seu quarto onde continuamos a conversar. Até o momento em que você se aproximou, segurou uma de minhas mãos e com a outra segurou minha nuca, aproximando seu rosto do meu ocasionando, por fim, na união dos nossos lábios em forma de um longo beijo. De olhos fechados, sentia nossas bocas dançando em um ritmo desconhecido, sentia sua respiração tocar meu rosto, sua mão alisar meu pescoço. Vivi aquele beijo e os outros que vieram depois dele de uma forma intensa e completa, tão particular minha que me deixou mais envolvido ainda em você. O seu toque foi capaz de me arrepiar, seus beijos me desligava do mundo e eu me sentia leve. As horas ao seu lado passaram rápido e, quando eu menos percebia, já estava na hora em que eu deveria partir. No entanto, o que eu estava sentindo era tão mais forte que não foi suficiente para interromper aquele momento nosso. Eu iria me atrasar, cerca de duas horas e meia, mas não me importei. Aproveitei todo o resto de momento que tive ao seu lado. Sentados na cama, você me prensou pela cintura com as pernas o que cresceu em mim uma necessidade de te tocar e permanecer tocado por você. Continuamos a trocar experiencias e contar nossos casos de vida. Eu contava mais do que você, porém você se expressava, analisava de forma a se mostrar indiretamente pra mim o seu modo de ser, de pensar, de agir. Eu gostei do que conheci. Eu gostei do que aconteceu. Eu gostei de você.

Você me cativou em tão pouco tempo, com tanta intensidade que não teve como não se sentir envolvido. Não sei o que será daqui pra frente. Não sei se nos encontraremos novamente. Não sei até que ponto nos permitiremos nos conhecer. Não sei se daríamos certo. E o rumo que nossa história vai levar é bem cedo pra se precisar. Mas, independente disso. O momento único que tivemos juntos foi essencial para me fazer sentir o que hoje sinto. E que, independente do rumo que essa história tome daqui pra frente, você foi uma pessoa que me marcou. E eu nunca esquecerei isso. E, hoje, longe de você, tudo o que tenho em mim é a imagem do seu sorriso envolvente e do seu olhar penetrante. Que como todas as lembranças, um dia foi real e capaz de nos fazer quebrar promessas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Universos paralelos

Eu achava não estar num dos meus melhores dias, sem saber mais tarde que aquele seria de longe, um dos melhores.

Conhecer pessoas sempre foi uma das práticas da convivência humana que mais admirei. Esse lance de afinidade e empatia é algo bem subjetivo que vai muito além do conhecimento das características do outro, às vezes se dá antes mesmo desse fato ocorrer. É algo de alma, completamente inconsciente, que simplesmente ocorre quando olhares se cruzam ou quando alguém é observado. Espíritas afirmam que tem haver com vidas passadas. Pessoas que conviveram juntas em situações que, de alguma forma, se registraram na alma. Registros, estes que se dão por sentimentos ou mesmo admiração. O curioso de tudo é que, independente da origem ou explicação, a empatia realmente ocorre e influencia no grau de convivência. É como se determinadas pessoas que me conheceram há 15 minutos se mostrassem mais íntimas que amigos que conheço há 7 anos, por exemplo.

Foi mais ou menos isso que senti quando te olhei pela primeira vez. Sentado naquele sofá de couro rasgado te vi caminhando sozinho até a cadeira um pouco mais alta que as normais, onde mais tarde você derramaria o suco de uva em mim. Nunca tinha te visto na minha vida, nem sequer sabia seu nome. Mas senti, lá no fundo, que de alguma forma te conhecia. Criei coragem e fui atiçar mais ainda a minha sede em, de fato,te conhecer. Nunca fui uma pessoa muito boa para começar um diálogo sem um assunto ou interesse de relevância para o mesmo, sem parecer um tanto oferecido ou forçar certa intimidade invasiva. Portanto me contive na minha timidez exacerbada enquanto observava o diálogo se desenrolar entre você e minha amiga, esperando a brecha certa para me inserir no mesmo de forma natural e não muito exagerada. Foi quando você se abriu pra mim. Quando trocamos nossas primeiras palavras a timidez foi aos poucos cessando e a sensação de empatia foi crescendo a ponto de que, quando menos esperasse, já estava te beijando. O mais diferente de tudo isso é que desse momento em diante não nos comportamos como pessoas que acabaram de se conhecer, mas como pessoas que já se conheciam. Parecíamos namorados e não um casal de ficantes. Devemos manter a calma, os pés no chão, pensei o tempo todo, mesmo me comportando como se você fosse o meu primeiro beijo. Mas independente disso, daquele dia em diante você começou a me marcar.

Outro fato interessante da convivência humana é isso. Cada pessoa é um mundo, cheia de particularidades e manias que reunidas a torna um ser único. Conviver com pessoas é conhecer um pouco dessas particularidades. É conhecer mundos diferentes que se acrescentam no nosso mundo. Se apaixonar é gostar intensamente, logo de cara, das peculiaridades desse mundo novo. Amar, é quando mesmo com inúmeras características negativas doloridas, as positivas, mesmo que poucas, presentes nesse universo que não é nosso se tornam grandes agentes responsáveis por embelezar e dar alegria ao nosso próprio mundo. É como a fusão de duas realidades que se acrescentam, que se desafiam, que se sustentam. E que, acima de tudo, se relacionam.

E assim, aos poucos tenho me permitido conhecer as propriedades do seu universo paralelo. Características suas e de mais ninguém que, aos poucos, vem me encantando e despertando em mim algo tão puro e bom. Vejo nossos mundos se combinarem, se misturarem sem perder a essência que continua permanecendo dentro da gente. A sensibilidade do pisciano com a euforia do sagitariano. A sua ansiedade quando não te contam na hora o que tem para ser dito, com a minha timidez em dizer claramente as coisas que quero. Sua mania exótica de tomar sorvete, com a minha de comidas italianas. Sua mania frenética de morder tudo, com a minha de mordiscar meus próprios lábios. Sua cisma com o tamanho do seu nariz e a minha com a dificuldade de engordar. O seu piercing no mamilo e os meus óculos alternativos. O seu trauma de cuidar de crianças no ônibus e o meu de ser babá no metrô. Você que fará Direito e eu que faço Farmácia. Você que tomou suco de caju e eu que tomei de amora. Você que não gosta de filme legendado e eu que não gosto de dublado. Seu beijo que tem gosto de maracujá e eu que tenho mania de sentir gosto de fruta nos beijos. Sua mania de procurar redundância nas frases e as minhas expressões engraçadas. A nossa mania de reparar a boca das pessoas. A gente que prefere Subway do que Mc Donald's. Nossa mania de dizer "te cuido" ao invés de "se cuida". A gente que gosta de se vestir bem, mas não liga pra roupa de marca. Nosso medo de dormir em hospital. A gente que prefere frutas vermelhas. As nossas manias de sermos desastrados. Nossa mania de comida temperada e café forte. A gente que ama nossos animais de estimação. A nossa mania de não jogar lixo na rua e detestar que faz isso. A gente que prefere filme nacional. A gente que acabou de se conhecer, mas que sentiu que se conhecia há muito tempo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pequeno príncipe




-Você já leu O pequeno Príncipe?
- Já, há muito tempo.
- E você gosta?
-Ah...Sim! Por que?

Um frio na barriga, uma ansiedade crescente. Meu Deus, vou chegar atrasado. Começava a escurecer. O comércio encerrava suas tarefas do dia. As pessoas passavam por mim cansadas, pela rotina exaustiva que provavelmente tiveram. Os carros, em perfeita sintonia, seguiam seus trajetos no sentido contrário ao meu. Meus passos me guiavam na ritmicidade do meu coração. A respiração começava a ficar ofegante, resultando numa tonteira agradável. Cheguei. A casa estava cheia de gente. Uma harmonia inquebrável, vibrante. Do meu jeito, do meu modo observei com compaixão as novas pessoas que toparam na minha vida. Particularidade inquestionável, conhecimento adquirido, convivência em prática. Você me olhava de certa forma que sem perceber, me desarmava por completo. Estendeu a mão. Segurou, discretamente, um pedaço de mim que vibrava nos meus dedos e que queriam, com uma vontade louca, sentir acolhido por toda aquela energia eloquente que você possui. Caminhamos até a varanda. Como você fica mais lindo ainda com o reflexo da lua nos seus olhos. Olhares profundos, tão particular seu que me envolvia por completo como um refrão de uma música incessante. Eu estava muito feliz. Sentia o vento da aurora batendo no meu rosto, trazendo aquele cheiro de noite que completava toda aquela cena iconográfica que a gente construiu juntos ali. Eu me sentia puro, meu coração vivo,minha alma serena. O engraçado é que a proporção da minha admiração por você crescia a cada momento em que eu te conhecia mais. Eu gosto do que eu sinto por você. Da primeira impressão, dos primeiros beijos, dos primeiros olhares, das primeiras risadas, dos primeiros momentos. Você foi marcante, você é marcante. Mesmo que a gente não se veja mais, que as circunstâncias nos afaste, nos leve a caminhos opostos eu posso dizer que você me marcou. Nossos momentos foram intensos e te cativar em mim é a recompensa de tudo o que você me proporcionou, proporciona. Olhei pro céu sem estrelas. Você olhou pra mim.
- O que foi? -disse.
- A noite está tão bonita. Vejo duas estrelas...
- Onde?
- Bem perto. Bem especial, bem iluminadas.

(silêncio)


-Você já leu O pequeno Príncipe?
- Já, há muito tempo.
- E você gosta?
-Ah...Sim! Por que?
- Por causa de algumas frases!
- Quais?
- "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
- Por que?
- Porque: "A gente só conhece bem as coisas que cativou." E, antes que me pergunte mais alguma coisa. " Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos!"

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Morangos mofados

A manhã daquele sábado começou bem propícia pras emoções que ocorreriam no seu tardar. O sol tímido por entre as nuvens, o chacoalhar das folhas das árvores da rua pelo vento forte que trazia até mim aquele misto de cheiro de chuva e terra úmida. Mais tarde, de fato, choveria.

De frente ao portão guardava em mim apenas a ansiedade em te reencontrar depois dos dias sem te ver. Apertei o 205 e, com o dedo ainda na gradinha do interfone, ouvi o clássico "quem é?"seco e frio de alguém que desconhece a face do outrem que o convoca."Sou eu", respondi. Tão clássico quanto o primeiro, que de tão impassível de definições, é capaz de identificar exatamente seu interlocutor. Entrei sem menos. Ao passar pela garagem lembro de ter pensado que era sim possível jogar badminton sem esbarrar nos carros, ao contrário do que você me dissera certa vez. Subi as escadas como se conhecesse exatamente aquele lugar que poucas vezes visitei. Ao chegar no seu apartamento a porta já estava aberta e ouvi sua voz me chamando da cozinha. Tranquei a porta e fui ao seu encontro com os olhos na espera de algo que tanto os saciava: sua imagem. Quando te vi minha alma se alegrou e meu coração sorriu tanto que, mesmo que minha boca se manteve perplexa, dava pra ver as veias pulsando no meu pescoço, como um apelo do coração que estava ali, pedindo atenção. Como você é lindo. Não disse, mas pensei do momento que te vi até muito depois. Você estava simples, centrado nas suas obrigações domésticas. Suas roupas estavam lavadas e as únicas peças que sobraram compunham seu traje naquele instante. Aflito em terminar tudo o mais rápido possível e poder se ocupar com outras coisas transpareciam em suas ações quase todas muito rápidas. Trocamos algumas palavras, alguns sorrisos, roubei-lhe alguns beijos e o tempo passou sem que eu havia notado. Como você é lindo, repetia sempre em pensamento.
Terminada as tarefas domésticas, você pode enfim relaxar. Mas sabemos que você não pára. Com pensamentos a mil, vontade de decidir o futuro, programar as próximas horas, agilizar o máximo para melhor aproveitar fim do dia, você quase não sentiu minha presença ali. Até que, por fim, agarrei seu pé e fingi lhe fazer uma massagem. Sentados no chão, você de frente pra mim, com o pé esquerdo esticado sobre minha perna, fechava os olhos e conversava sobre o faríamos aquele dia, sobre nossos amigos e quem veríamos em breve. Segurei seu pé com minhas duas mãos. Os meus dedos comprovavam o contorno do seu pé que meus olhos desenhavam. Admirei de perto cada pedacinho daquele pé que ninguém, talvez nem você mesmo tenha reparado tanto. A sensação que senti foi única. Eu estava apaixonado. Tocava ali em algo muito mais do que um pé esquerdo, mas em um pedaço de você, em uma parte sua que me remetia ao todo. Todo esse que eu tanto amava. Eu te amava. Eu te amo. A sensação da proximidade que eu tinha de você durante aquela massagem me fez ter a certeza de que você me fazia bem. Em pensamentos, relembrei do nosso primeiro beijo. O beijo sabor morango. O beijo que como todos os outros me encantou, me tranquilizou. Olhei para você com os olhos brilhando, meu coração pulava de tanta euforia dentro de mim, senti o estômago revirar. Te metralhei com o olhar doce e carregado de amor que eu fixei em você. Você me olhou de volta e eu sorri timidamente. Retirou o pé e levantou de supetão dizendo que tomaria um banho. Você sequer notou em toda a singularidade dos meus gestos que diziam o tempo todo a importância que você tinha pra mim.

As horas foram se passando. Eu insistia em te querer. E você insistia em não perceber. Encontramos nossos amigos, saímos pra beber, nos divertimos, jogamos conversas fora. Várias foram as vezes que secretamente te encarei com certa furtividade. Como se meus olhares roubassem da sua imagem pra saciar a vontade que eu tinha de você. Mas você se afastava, não percebia, não se importava. O tempo continuava correndo. E você corria com ele. Corria pra longe de mim e eu quieto, observava tudo. Apenas percebia você passando por mim, te tirando de mim. Dos meus olhares, dos meus beijos, do meu contato, do meu coração. Você fugia. Você foge. Seria eu uma ameaça? Seria uma arma o meu amor? Não sei. Apenas vi, sem saber o que fazer, você se distanciar de mim. E assim ficou, até que mais tarde, enquanto todos dormiam, você completamente apático e indiferente me disse que não dava mais. "Não dá mais o que?! Você quer terminar, é isso?!", disse eu com o coração nas mãos. Você, incapaz de dizer que sim ou não, apenas gesticulou positivamente com a cabeça. Por que era tão difícil falar?!

O seu gesto covarde entrou pelos meus olhos que mais cedo havia te admirado com imensa paixão e desestruturou tudo em mim. Senti o chão ficar cada vez mais macio. Meu estômago revirava. Eu ia vomitar. Sem nem me importar com o resto, com a distância, com você, com quem visse, com quem ouvisse, com quem acordasse, eu corri até o banheiro onde vomitei. Vomitei todos os sapos que um dia você me fez engolir. Todas as palavras que eu segurei para não te dizer um dia. Todos os insultos que tentaram uma vez sair de mim. Todas as verdades que preferi não dizer. Todos os sonhos que ousei em ter. Vomitei todos os morangos do seu beijo. Vomitei tudo. E como se não bastasse, ainda ouvi você dizer que toda vez era assim, dessa forma e que já estava cansado dessa situação. Levantei do chão do banheiro e lavei o rosto com a água fria da pia e as lágrimas quentes do meu coração ferido. Te encarei mais uma vez. A última vez. E a única coisa que consegui dizer foi o tradicional, mas sincero "esperava mais de você". Chegamos no fim. Os morangos mofaram.

E, naquele sábado, por fim, choveu.

terça-feira, 15 de março de 2011

Colorindo sentimentos




A mão quente apertava bem aquele pedaço de madeira recheado. O recheio sólido do material de madeira era largado para trás no pedaço do papel à medida que a mão dançava no ar. O branco deixava de ser branco. A cor ia dominando todo aquele espaço pré-determinado, dando ao papel outro significado, um contorno, um desenho. A mão largou o lápis e pegou outro de recheio diferente. Quanto mais a mão dançava, mais as cores se misturavam. A intenção daquilo tudo estava se tornando, à medida do tempo, mais evidente, sublime. A representação de algo começava a se despertar no papel. Creck! A ponta daquela magia toda foi arremessada há uns 20 centímetros de onde estava a mão. A força do recheio que traz cor ao papel foi tão grande sobre o mesmo que, ao mesmo tempo em que possuíam tanta afinidade, possuíram enorme repulsa. O papel cansou do lápis. O lápis cansou do papel. O desenho estava inacabado e também estava pronto. Não havia mais nada que se pudesse fazer. Até que: Rock, rock, rock. Um material plástico quadrado usava de toda a sua dinâmica para restabelecer a mágica do pedaço de madeira. Parecia milagre, mas não era. Tudo tem um preço: À medida que haviam crises entre o papel e o recheio mágico, menor ficava o lápis, até chegar o dia em que escoaria toda aquela magia de colorir as coisas.


Esse era o retrato que dominou meus pensamentos durante a tarde. A arte do colorido funciona assim. De maneira análoga funciona a dinâmica da vida. A mão seria os ideais, o lápis o amor, o papel o amante e o apontador os obstáculos. É preciso cautela e sintonia para que tudo termine num belo desenho, para que o tempo possa construir e colorir as coisas, de forma que o desenho se finalize sem a necessidade de se extinguir o lápis. Essa é a arte da vida, a arte do amor.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Confissões em um Divã

Sobre coisas que não devem ser ditas, mas feitas.

Há uma coisa em mim que me perturba. Ontem mesmo eu estava no divã relatando os acontecimentos da minha vida quando minha terapeuta puxou esse assunto. É algo intrínseco, que influi muito no meu jeito de sentir as coisas e que varia de pessoa pra pessoa. Não, o sexo não tem importância, nem mesmo a orientação sexual. O engraçado é que li em um livro dias atrás que todos nós possuímos uma parte masculina e uma parte feminina. E, dependendo das nossas ações e dos fatos, o equilíbrio desses lados se quebra e agimos ora mais "femininos" e ora mais "masculinos". Já disse que não tem haver com sexualidade! A ciência explica que o lado feminino é um lado mais sentimental, afetuoso e já o lado masculino, um lado mais racional, frio. Agora entendeu? Então, retomando: Eu disse que ontem, quando estava no divã minha terapeuta me fez enxergar que meu lado "feminino" é mais evidente nas minhas relações afetivas. Talvez esse meu lado afetuoso, carinhoso que demonstra meu sentimento tão explicitamente gera uma procura de afeto. Não, não sei se se trata de carência. É uma sede insaciável de demonstrar afeto, de sentir amado, de mostrar amar. Enfim, loucura, pensei. Não gente, não é errado ser afetuoso, nem certo. Na verdade não existe um porque nem um motivo, simplesmente sou assim, algumas pessoas são assim. Não adianta eu pensar em como solucionar isso, acredito que tenho que aprender a melhor forma de conviver com isso, sem que me prejudique tanto e que prejudique quem está envolvido comigo, entende? Eu sei! Claro que eu sei que as pessoas são diferentes! Mas conviver com as diferenças não é apenas respeitar, é sobreviver! Não não, eu sei que não sou perfeito. É óbvio! Mas o que custa eu tentar mudar os meus defeitos? Aprender com os erros. Sei que eu sou dessa forma e isso pode ser errado, eu tenho que me aceitar assim, mas eu não posso ignorar e continuar errando, compreende? E justamente por não ser perfeito eu tenho limites, não consigo aceitar tudo. Não, não estou falando de você, estou falando de mim. O nosso namoro? O que que tem? É a minha forma de encarar isso, tente entender. Você não precisa ser igual a mim, só precisa ser um pouco mais compreensiva, acredito. Você não está me entendendo?Eu tava querendo dizer que...Não! Não se estresse! Por que você tá gritando? Eu só precisava desabafar...Eu sei! Ai, não complica! Mudar de assunto? Olha, realmente você não é minha terapeuta! Ignorante, eu? Você está irritada, não vou falar mais disso com você dessa forma. Uhum. O que tem minha terapeuta? Não ela não coloca coisas na minha cabeça, me ajuda a entendê-las. Não meu bem, não disse que é você quem coloca...Olha. Amor. Amor, me escuta. Tá, entendi. Amor, amor me escuta. Olha eu entendi que você faz de tudo pelo meu bem. Entendi que você me ama, eu também te amo. Não, não! Não estou querendo achar motivos para a gente brigar não. Olha, vamos fazer o seguinte, você vai pra casa, descansa, tenta ser um pouco mais compreensiva. E eu? Onde que eu vou? Ahh..preocupa não, vou na minha terapeuta! Aliás, já estou atrasado!