terça-feira, 2 de abril de 2013

Louca epifania

Certamente atrasaria. Essa chuvinha, mesmo que rala, é sempre motivo pro trânsito virar um caos. Inda mais que se tratava de uma sexta-feira à noite, onde, inexplicavelmente, as ruas se entopem. Um misto de pessoas que se desesperam para chegar logo em casa depois de uma árdua semana de trabalho, com outras que, mesmo cansadas de seus compromissos semanais, anseiam por momentos de diversão e distração com os amigos nos grandes points da cidade. Mas o engraçado mesmo é que em dias tão quentes, uma simples chuva sempre vem acompanhada de um frio singular que destaca. E, independente da origem, frio sempre me agradou.

As horas passavam bem devagar, não sei se era pelo fato de saber que você atrasaria ou pelo fato de estar muito ansioso. Não importa, havia chegado mais cedo justamente para aproveitar cada momento daquele dia. E a ansiedade em te ver, era um deles. Pois, mesmo cruel por me desesperar, era gostosa porque sabia que iria matá-la muito em breve.

 Sentado em frente a porta, via as pessoas chegarem com seus guarda-chuvas, trazendo pra dentro um pedacinho daquele clima úmido que  impregnava a cidade naquele momento. Em meus devaneios, me distraia com esses acontecimentos, tão usuais, até ser despertado pelo garçom que trouxe pra mim o cardápio na espera de que, enfim, eu pedisse alguma coisa. Agradeci e continuei sonhando acordado, só que dessa vez folheando página por página daquela lista de coisas que, por ventura, eu haveria de querer. E que tinha muitas coisas desejáveis, menos você, que era, de fato, o que mais queria ali comigo. Tão longe, e tão perto. Era assim que me sentia. Meus pensamentos navegavam numa epifania de sentimentos adormecidos, que soavam como resposta de algo que eu não sabia se queria que acontecesse, mas que já estava acontecendo. Minto. Que já tinha acontecido faz tempo. Sem perceber, você chegará, abrirá um sorriso do tamanho do mundo, que só você consegue, capaz de iluminar ambientes. Contará como a chuva te atrapalhou a chegar até ali, me lançando vez em quando olhares tímidos, cheios de ternura. Me conquistará ainda mais com esse seu jeito meio moleque de ser às vezes, mas sempre com muita responsabilidade. Beberemos e conversaremos durante horas trocando, entre sorrisos e olhares, muitos beijos. Beijos de todas as formas. Beijos quentes, tímidos, avassaladores, secos, molhados, macios, ríspidos, cativantes, uma infinidade deles. Mas todos tão seus, tão meus, tão nossos. Não importa, eu saberei que jamais irei esquecê-los. Depois de tanto papear, andaremos na rua de madrugada, como quem não tem medo do que pudesse acontecer, porque naqueles momentos nada mais importará, só estar perto de você. Transaremos como loucos que somos. Conhecendo o corpo um do outro, a alma um do outro, a essência um do outro. Sentir tudo isso transcendendo em mim pelo sabor do seu sexo. Pela energia mais pura e cativante que nossas almas tem ao se aproximarem tanto uma da outra. Gozos de prazer, sexuais e espirituais. Certeza que nossa química será muito boa. Mais do que isso. Nossas sintonias caminharão juntas, como dois gigantes a desbravar o mundo, a vida. Dormiremos abraçados, um protegendo o outro dos sonhos ruins. Acordarei primeiro admirando, ao seu lado, suas feições ao dormir, sereno, sem muitas preocupações que te tirassem o sossego. Passado alguns dias, morreremos de saudade um do outro. Loucos de vontade pelo próximo encontro. E quando ele acontecer ficaremos juntos como se não houvesse o amanhã. Conhecerei sua casa, onde você cultiva um mundo seu, do seu jeito. E eu não vou querer mais ir embora. Conhecerei sua família e você a minha. Serei tímido como jamais fui. As pessoas mais importantes pra você começarão a me marcar também. Cada um, com sua peculiaridade, crescendo em mim a cada dia. Viveremos algo tão intenso durante dias, meses, anos. Durante muito tempo. Algo que eu jamais vou querer que acabe. E que, se um dia acabar, jamais esquecerei. Pois, mesmo que não seja eterno, um grande amor sempre deixa rastros. E a gente sempre sabe quando se está diante de um grande amor, mesmo quando ele ainda é só uma sementinha prestes a crescer. Porque nascer, ele já nasceu faz tempo.

Tão longe e tão perto. O otimismo crescente de sensações boas prevaleciam dentro de mim quando eu pensava em você. Sorria sozinho naquela cafeteria. Certamente pensariam que sou louco. E, talvez eu seja. Louco por me desligar daquele mundo frio e chuvoso, onde todos viviam em seu caos diário. Louco por estar tão longe daquela realidade toda, mas tão perto da minha realidade. Era fato que eu estava apaixonado.  E, talvez eu devesse ser louco por entrar de cabeça, como num primeiro amor, onde tudo é intenso demais, onde tudo é puro demais. Louco por ainda me permitir gostar, sem medos, sem medidas. Podem me chamar como quiserem. Pois, foi assim, com você chegando sem que eu percebesse com um sorriso do tamanho do mundo acompanhado de um olhar que me despia a alma que eu tive certeza de que valia a pena ser louco. Que a sementinha já havia sido plantada.